sábado, 8 de agosto de 2015

A mentalidade revolucionária foi triturada pela cobiça

08/08/2015
 às 15:16 \ CorrupçãoSocialismo

Da “corrupção virtuosa” à “corrupção pecaminosa”: a trajetória de Dirceu como retrato do PT

coluna de Demétrio Magnoli na Folha hoje está excelente e toca num ponto que venho repetindo aqui inúmeras vezes: a mentalidade revolucionária produzida pelos “intelectuais” do PT está no cerne de seus problemas de corrupção. O PT não se tornou o partido mais corrupto do país por coincidência, mas sim por método, por abraçar uma mentalidade que justificava os meios nefastos em nome da “causa nobre”. Eis o grande xis da questão.
Demétrio, ele mesmo um ex-petista que chegou a ser preso pelo regime militar e ainda um sociólogo de esquerda, entende perfeitamente que não é possível traçar uma linha divisória entre o “roubo do bem” e o “roubo do mal”, e descreve a trajetória de José Dirceu, o “guerreiro do povo brasileiro”, como uma inevitável desgraça coletiva. Sem eximir o indivíduo de responsabilidade, o fato é que foi essa visão petista do mundo, endossada por seus “pensadores”, que permitiu o avanço do Dirceu corrupto e milionário, com casas luxuosas pagas com propina de estatal. Escreve Demétrio:
O PT traçou uma linha na areia separando a “corrupção pela causa”, virtuosa, da “corrupção pelo vil metal”, pecaminosa. Corrupção virtuosa: no mensalão, intelectuais petistas produziram doutos textos consagrados à defesa da apropriação partidária de recursos públicos, e a relativa pobreza de Genoino tornou-se símbolo e estandarte. Corrupção pecaminosa: Dirceu, indicam as provas oferecidas pelos delatores, usou sua influência no governo para constituir patrimônio pessoal. O guerreiro caído cruzou a linha proibida. Seu degredo é uma desesperada tentativa de perenizar a fronteira que se apaga sob ação do vento.
[...]
Dirceu é Dirceu, a segunda face do PT, não um Duque qualquer, um Paulinho Land Rover ou um Vargas que só era André. Dobrando-se ao vil metal, o guerreiro traidor remexe a areia, desmarca um limite, desfaz uma certeza. Se até ele transitou de uma corrupção à outra, como separá-las nitidamente, sanitizando a primeira e satanizando a segunda? O degredo silencioso de Dirceu, que equivale a uma gritaria, destina-se a abafar a pergunta incômoda. Os juízes do Partido temem menos a hipótese improvável de uma delação premiada do guerreiro traidor que a exposição pública das conexões entre a corrupção virtuosa e a corrupção pecaminosa.
A linha divisória riscada pelo PT reflete uma lógica religiosa, típica dos partidos autoritários. A corrupção virtuosa é aquela que serve à finalidade transcendente de salvação do Povo; a pecaminosa, pelo contrário, serve ao objetivo terreno de acumulação individual de bens materiais. Na política democrática, contudo, a oposição relevante é entre o público e o privado, não entre a salvação coletiva e o enriquecimento pessoal. Segundo essa lógica, cujo critério são os meios, o guerreiro não caiu sozinho.
Revisito as fotografias do líder estudantil preso, com centenas de outros, no Congresso da UNE de Ibiúna, em 1968, e de sua partida para o exílio, na base aérea do Galeão, com 12 outros, em 1969. Vistas da torre de observação do presente, elas têm algo de profundamente melancólico: os sinais de um fracasso coletivo. Mas, na história que se encerra, há também a prova de um teorema: a “corrupção virtuosa” conduz, inelutavelmente, à “corrupção pecaminosa”. O PT não deveria renegar seu guerreiro caído, nem defendê-lo, mas reavaliar a si mesmo no espelho de sua trajetória. Para nunca mais cerrar o punho contra as instituições da democracia. 
Dirceu não é um acidente dentro da trajetória petista; ele é sua essência! Não haveria PT sem Dirceu e Lula. Eles são o PT! E não estão enrascados com a Justiça por acaso, mas sim porque a premissa básica do PT era exatamente essa: em nome da causa, vale tudo!
Rodrigo Constantino