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quinta-feira, 28 de julho de 2016

Crônica do incomodo com uso da garrafa de plástico no Brasil / Luisa Leme

 Cartas Expatriadas:
Água mineral (Foto: Divulgação)
 Aquele incômodo de que todos nós precisamos Recém chegada, ainda descobrindo o mundo que é o Rio de Janeiro, a garrafa d’água é o item que tem me causado desagrado 
 28/07/2016 - 14h06

 As vezes ela é azul, as vezes verde, mas quase sempre transparente. Difícil de abrir quando estamos com pressa. Depois de quebrar o lacre, uma tirinha de plástico fica infestando as mãos. Há muitos tipos, preços, tamanhos, opções (quase sempre caros). Pode ser do tamanho de um barril, pode caber no bolso. E em algumas situações raras, é distribuída de graça. Afinal, a presença dela na mesa brasileira é frequente. Isto é, se a mesa é farta…A sua é com ou sem? A minha quase sempre vem com, mas no fim de toda mesa, a falta ou não do gás não faz diferença. 

O barulho de plástico amassado, na verdade, é o que mais me incomoda na garrafa d’água. Recém chegada, ainda descobrindo o mundo que é o Rio de Janeiro, a garrafa d’água é o item que tem me causado desagrado. Enquanto tanta gente no mundo discute como viver sem, nós aqui ainda precisamos dela. Claro, água todo mundo precisa. 

E então, por razões que meu olhar cheio de comparações, atrasado para enxergar, não consegue identificar direito, o plástico se torna necessário. E aí o tamanho da garrafa condiz com o estabelecimento, o galão toma conta de um braço inteiro que estaria levando as compras do supermercado. E assim, de garrafa em garrafa d’água, quem lucra é quem vende algo de que o corpo humano precisa para sobreviver—aproximadamente dois litros por dia. 
 Talvez por essas razões, a garrafa d’água vence todas as disputas ambientais, do governo, econômicas e sociais. 
Combatemos a seca no Sudeste com garrafas d’água. Não entendo como, mas mesmo depois de tanta coisa no Brasil acabar, elas continuam proliferando por aqui. A garrafinha azul—aquela que só parece ficar parada e exercer sua função antes de aberta, porque logo que perde a tampa derruba, desperdiçando tudo. Aquela garrafa de plástico ruim, que parece quase uma burrice entre pessoas esclarecidas no hemisfério norte, se torna um fator social no Brasil. Enquanto restaurantes refinados nos Estados Unidos perguntam se nós aceitamos água da torneira apresentando copos gigantes e cheios na mesa—sem cobrar pelo líquido transparente—aqui a gente paga seis reais por uma garrafinha inútil de menos de 500 mililitros. 

 A sede e o alarde sobre a qualidade das águas tão fartas ao redor nos faz comprar a garrafa. A garrafa de plástico que me lembra que muitos não podem beber dessa água. A água da garrafa me faz pensar na água parada da dengue e do zika—a que não desce porque não tem esgoto. A água que afeta a saúde da maioria das pessoas na cidade em que eu vivo agora. Penso na garrafa já usada, perto dessa água suja que atrapalha o córrego. A garrafinha que já não está nas prateleiras do mercado, nem no isopor do vendedor da praia, nem no console do carro do Uber. 

Penso nas garrafas que ficaram nos aterros de lixo fora da cidade. Montanhas de plásticos amassados azuis ou transparentes ou verdes, todo barulhentos, nas montanhas do lixão que existia em Duque de Caxias, que eu conheci só no filme do Vik Miniz. Essa água mineral, natural, fluoretada, sem gás, que não contém glutén, que vem lá de Campos do Jordão...da qual eu até sei a composição química por causa desse rótulo da “Indústria Brasileira” me deixa com um gosto ruim na boca. Essa água me causa irritação com o nosso país de “recursos naturais abundantes”. Sinto falta do passado de promessas e mais igualdade e do filtro de barro dos meus avós. Água mineral (Foto: Divulgação) TAGS:geralrio de janeiroágua mineralSedebrasil