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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

As armadilhas do Congresso ... ou a culpa é sua !

A crise, segunda temporada

Crise (Foto: Arquivo Google)
Consumado o afastamento de Dilma Roussef, a crise, como é óbvio, não termina: entra em nova fase. Segunda temporada.
O fator desestabilizador, a Lava Jato, prossegue. Até aqui, nenhum líder de expressão, da situação ou da oposição, deixou de ter alguma menção desabonadora nas delações premiadas, incluindo o próprio presidente Michel Temer.
É claro que há gradações nas denúncias; nem todos cometeram os mesmos delitos – e alguns foram apenas citados, restando comprovar o que foi dito. Outros já receberam até sentença e já a cumprem na penitenciária de Curitiba.
Mas é claro que a simples menção já é fator de desgaste, com consequências políticas que afetam o conjunto das instituições, incluindo o Judiciário, que começa a constar das delações da Lava Jato – vide as menções que Leo Pinheiro, da OAS, faz em relação ao ministro Dias Toffoli, do STF, e Benedito Gonçalves, do STJ.
As delações mais substanciais – a dos executivos da Odebrecht, e do presidente da OAS, Leo Pinheiro, além de João Santana e sua mulher – ainda estão em curso. E prometem implodir a República. De quebra, o afastamento definitivo de Dilma deve apressar o enquadramento de Lula e de outras figuras de proa de sua corte.
Temer, uma vez efetivado, ganha musculatura, mas nada garante que suficiente para o que tem pela frente. O legado petista exige providências impopulares, com cortes drásticos no orçamento, inclusive nos programas sociais, aumento de tributos e contenção de gastos. E há as reformas: previdenciária, tributária, trabalhista.
O poder de desestabilização das corporações é conhecido e já põe a boca no trombone, avisando que combaterá cada uma dessas reformas, que todos admitem indispensáveis, desde que não afete o seu bolso. O Brasil corporativo, dos sindicatos, centrais sindicais, ONGs e “movimentos sociais”, é mais poderoso que o Brasil real, dos 12 milhões de desempregados, que não dispõem de organicidade para fazer valer suas urgências.

Temer terá de enfrentar esse quadro, sem contar com suporte popular – era quase desconhecido até ser guindado à Presidência pelo impeachment. Sua base parlamentar é instável e em grande parte sob pressão da Lava Jato. É uma maioria a ser construída a cada votação, a um preço em regra adverso ao interesse público.
Não é casual que o governo cogite de recriar ministérios que ele mesmo extinguiu, como é o caso do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que se antepõe ao Ministério da Agricultura, abrigando organizações hostis ao agronegócio – isto é, ao desenvolvimento agrário. Mais ministérios, mais cargos, mais despesas, mais impostos. Tudo isso em troca de votos no Congresso.
A única chance de Temer, diante de tal quadro, é abdicar de fato de qualquer projeto eleitoral. Já disse que não será candidato à reeleição, mas em política declarações, dissociadas de atos, têm valor próximo (ou mesmo abaixo) de zero. No caso de Temer, será preciso que arroste vaias e impopularidade – e mostre coragem.
E não bastará. Se ele, de fato, não tem aspirações futuras, o mesmo não se pode dizer de seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, visto no meio político como pretendente ao trono.
Segundo esses comentários, que partem de amigos seus, Meirelles sonha reeditar FHC, que, ao consertar a economia, via Plano Real, como ministro da Fazenda de Itamar Franco – que também chegou ao cargo via impeachment do titular -, elegeu-se por duas vezes, e no primeiro turno, presidente da República.
No caso de FHC, porém, o projeto político instalou-se após o êxito do projeto econômico, não antes. Se a política guiar os passos de Meirelles, as chances de êxito se tornam ainda mais remotas.
A saída de Dilma coloca o PT e suas franjas partidárias – os tais movimentos sociais – na função que melhor exercem: a de oposicionistas e predadores. Pela via da propaganda, tentarão atribuir ao governo a autoria do legado que eles mesmos produziram, e dessa maneira capitalizar as insatisfações.
O ambiente pré-eleitoral, que já preside as ações do Congresso, dificulta – ou mesmo inviabiliza - a aprovação das reformas.
Diz-se que o que diferencia o estadista do político é que, enquanto aquele pensa nas próximas gerações, este pensa nas próximas eleições. Não há estadistas no Congresso, que hoje divide suas preocupações entre as urnas e o banco dos réus. Não é ambiente propício à envergadura das necessidades do país.