sábado, 3 de dezembro de 2016

"Ficou entendido que Temer e sua assessoria têm muito a desaprender sobre seus conceitos pré-concebidos."


Temer e assessores têm muito a desaprender 

Josias de Souza



A assessoria do Planalto havia planejado cuidadosamente os erros de Michel Temer. O presidente aterrissaria no aeroporto de Chapecó, testemunharia o desembarque de 50 esquifes, apertaria a mão dos familiares, entregaria medalhas póstumas e daria no pé. Para evitar as vaias, Temer não iria daria ao estádio da cidade, onde seriam velados coletivamente os corpos das vítimas do acidente aéreo com a delegação do time da Chapecoense.
Num rasgo de lucidez, Temer subverteu o planejamento. Empurrado pelas críticas, inventou uma desculpa e foi ao estádio. Na véspera, a assessoria do Panalto dizia que Sua Exclência jamais cogitara ir ao velório. “Não poderia dizer ontem porque, se eu dissesse, a segurança iria colocar pórticos em volta do estádio e revistar as pessoas que entram”, desconversou Temer. “Só comuniquei que vou lá agora, para facilitar a vida de todos.” Hã, hã…
Caindo-lhe a ficha, Temer percebeu ao chegar na 'Arena Condé' que suas preocupações ficaram irrisórias. Descobriu que, diante do sofrimento pungente de uma cidade inteira, sua presidencial figura tornou-se parte do elenco de apoio. Em vez de vaias, Temer ouviu todos os sons aborrecidos que compõem a trilha sonora da morte: choro, soluço, lamúria, condolências. Perto da massa densa de torcedores, o presidente parecia um pequeno homem.
Foi assim, desimportante e quase invisível, que Michel Temer engrandeceu o papel de presidente no velório de Chapecó. Teve a sabedoria de sair discretamente. E sem discursar. Por sorte, Temer se deu conta de que um presidente da República não pode ser apenas uma pose fria. Por trás da pose, com vaias ou sem vaias, é preciso que exista uma noção qualquer de solidariedade. Ficou entendido que Temer e sua assessoria têm muito a desaprender sobre seus conceitos pré-concebidos.